Guerras e tensões internacionais passaram a influenciar diretamente o bolso do produtor
Cenário global abre oportunidades históricas para o Brasil, aponta Oliver Stuenkel”
Geopolítica deixa de ser tema distante e passa a integrar estratégia do agro, afirma Oliver Stuenkel - Foto: Aline Merladete
A geopolítica deixou de ser um tema restrito aos governos e passou a influenciar diretamente as estratégias de empresas, cadeias produtivas e mercados agrícolas globais. Esse foi o principal recado da palestra “Cenários da Macroeconomia e Geopolítica”, ministrada por Oliver Stuenkel durante o ENSSOJA 2026.
Professor da FGV, pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, e pesquisador do Belfer Center, da Harvard Kennedy School, Stuenkel afirmou que o cenário internacional entrou em uma nova fase marcada por tensões entre grandes potências, conflitos mais frequentes e maior instabilidade econômica global.
Segundo ele, o Brasil historicamente priorizou discussões internas e demorou para perceber o impacto direto das transformações internacionais sobre a economia nacional. Ainda assim, destacou que mesmo empresas focadas exclusivamente no mercado doméstico acabam sendo afetadas pelos rumos da geopolítica.
Para exemplificar essa relação, o pesquisador citou um estudo realizado por colegas da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrando que o crescimento do PIB chinês tinha correlação com as chances de reeleição de prefeitos em regiões brasileiras, especialmente no Centro-Oeste. “Hoje não dá mais para fazer planejamento estratégico sem olhar para o cenário internacional”, afirmou.
Durante a palestra, Stuenkel explicou que o período entre os anos 1990 e meados de 2015 foi uma exceção histórica. Segundo ele, o mundo viveu uma fase de relativa estabilidade, marcada pela expansão da globalização, aumento do comércio internacional e redução de tensões geopolíticas.
O pesquisador lembrou que, após o colapso da União Soviética, os Estados Unidos apostaram em um modelo de integração econômica global, incorporando países como China e Rússia ao sistema internacional. “Em vez de conter possíveis rivais, os Estados Unidos tentaram integrar essas economias ao sistema global”, explicou.
Na avaliação do especialista, esse ambiente favoreceu o crescimento econômico global, reduziu a pobreza, ampliou o comércio internacional e permitiu a construção de cadeias globais de valor extremamente complexas. O agro também foi beneficiado por esse cenário de estabilidade e previsibilidade.
Stuenkel destacou ainda que, naquele período, países reduziram drasticamente gastos com defesa e ampliaram investimentos em infraestrutura, saúde, educação e inovação. A Alemanha foi citada como exemplo de país que negligenciou sua própria segurança ao confiar na estabilidade do sistema internacional e na parceria estratégica com os Estados Unidos.
Contudo, o professor afirmou que esse modelo entrou em colapso nos últimos anos. Segundo ele, o mundo unipolar chegou ao fim e deu lugar a um ambiente multipolar, marcado pela ascensão da China e pela redistribuição do poder global.
“A China chegou ao patamar de grande potência, e sistemas com várias potências tendem a ser mais instáveis”, destacou.
Para Stuenkel, as atuais tensões internacionais não podem ser explicadas apenas pelas decisões individuais de líderes políticos. Segundo ele, fatores estruturais impulsionaram o aumento da rivalidade entre países e o crescimento dos choques geopolíticos.
Nesse contexto, a guerra entre Rússia e Ucrânia foi apresentada como reflexo dessa transformação global. O pesquisador afirmou que Moscou só avançou militarmente porque percebeu que o cenário internacional havia mudado e que o Ocidente já não possuía a mesma capacidade de impor isolamento econômico total como teria décadas atrás.
“A Rússia sabia que poderia contar economicamente com outras potências como China, Índia e países do Sul Global”, afirmou.
Ele destacou que conflitos geopolíticos passaram a fazer parte do “novo normal” e alertou que empresas precisam incorporar análises geopolíticas ao planejamento estratégico.
“Hoje, não basta reagir às crises. É preciso se preparar de forma proativa”, disse.
Entre os principais desafios apontados estão a necessidade de diversificação de mercados, construção de cadeias de suprimento mais resilientes e redução de dependências estratégicas. Stuenkel citou como exemplo os riscos envolvendo Taiwan e possíveis impactos sobre logística global, tecnologia e cadeias industriais.
Apesar do aumento das tensões internacionais, o pesquisador afirmou que o novo cenário também abre oportunidades para países considerados geopoliticamente mais seguros. Segundo ele, a América Latina se tornou atualmente a região de menor risco geopolítico do mundo.
Na avaliação do especialista, esse movimento ajuda a explicar o interesse europeu no acordo entre União Europeia e MERCOSUL. Stuenkel afirmou que países europeus buscam reduzir vulnerabilidades diante da dependência energética da Rússia, das incertezas na relação com os Estados Unidos e da crescente competitividade chinesa.
“A Europa percebeu que precisa diversificar relações econômicas e reduzir vulnerabilidades”, afirmou.
Ele destacou ainda que o Brasil surge como ator relevante nesse processo global de diversificação e reposicionamento das cadeias econômicas internacionais.
Por outro lado, Stuenkel alertou que o país não pode depender apenas da diplomacia oficial para defender seus interesses comerciais. Segundo ele, empresas e setores produtivos precisam atuar de forma mais estratégica no debate internacional.
“Geopolítica deixou de ser assunto apenas de governos. Ela passou a fazer parte da estratégia de negócios”, concluiu.